Marcha atópica: dermatites e outras alergias

27 de agosto de 2020

Dermatite, bronquite, asma, rinite alérgica, alergia alimentar: você sabia que todas essas manifestações podem estar interligadas? A atopia acontece por causa de uma predisposição genética e também por conta de fatores ambientais. A chamada marcha atópica é caracterizada pela recorrência e progressão dessas doenças atópicas ao longo da vida de um indivíduo que possui atopia.

Neste post, você conhecerá um pouco mais sobre a atopia, sobre a marcha atópica e poderá entender, através de pesquisas e estudos apresentados pela Dra. Paula Ferreira, como e por que acontecem as manifestações da doença, quais são as recomendações de tratamento e cuidados para evitar os incômodos da pele, nariz, pulmão e trato gastrointestinal. Confira!

Dra. Paula Ferreira

CRM 140064

Graduação, residência e doutorado pelo HC da Faculdade de Medicina da USP

O que é a atopia?
Atopia vem do grego e significa estranho, fora do lugar ou deslocado. Em medicina, o termo atopia engloba um conjunto de manifestações alérgicas sistêmicas de diversos órgãos e aparelhos (pele, via aérea respiratória superior, pulmões e trato gastrointestinal), além de manifestações no sistema nervoso, como irritabilidade, ansiedade e inquietude, secundárias ao processo alérgico.

O que é a marcha atópica?
A marcha atópica é a terminologia usada para descrever a progressão das doenças atópicas ao longo da vida do indivíduo com atopia. Nos primeiros meses de vida, a criança que apresenta defeitos na barreira cutânea manifesta lesões de pele como o ressecamento (ou xerose) e a dermatite atópica. Mais tarde, a criança desenvolve as manifestações respiratórias da atopia: a rinite alérgica e a bronquite/asma. Uma parte das crianças com atopia também irá desenvolver a alergia alimentar, com quadro de refluxo ou diarreia após ingestão de certos alimentos. Com o passar dos anos, algumas manifestações tornam-se mais fortes enquanto outras podem diminuir.

A atopia começa na pele?
Existe uma hipótese para explicar as manifestações da atopia que é conhecida como hipótese de “fora para dentro” na qual a disfunção da barreira cutânea levaria à sensibilização do sistema imunológico e a um estado hiperreativo do organismo e, consequentemente, às manifestações da atopia.

Sabe-se que a pele do indivíduo com atopia apresenta diversas alterações congênitas que culminam em uma disfunção da barreira cutânea. Essa disfunção da barreira cutânea permite a entrada de agentes irritantes na pele e, consequentemente, dentro do organismo humano com maior facilidade. Esses agentes irritantes dentro do organismo resultam em inflamação da pele, cuja manifestação clínica é a dermatite e, posteriormente, a inflamação se estende para as vias aéreas e para o trato gastrointestinal.

Quais são as evidências clínicas da marcha atópica?
Estudos demonstram que, em cerca de 50% dos pacientes com atopia, as manifestações da doença acontecem em mais de um local (pele, nariz, pulmão e trato gastrointestinal) e ocorrem de forma sequencial dando origem ao conceito de marcha atópica. Em um estudo internacional que acompanhou 94 crianças com dermatite atópica por sete anos,  43% dessas crianças desenvolveram bronquite/  e 45% desenvolveram rinite alérgica. Nesse estudo também foi observado que quanto mais grave a dermatite atópica, maior o risco de a criança desenvolver asma: 70% das crianças com dermatite atópica grave desenvolveram bronquite/asma, comparado com 30% das crianças com dermatite atópica leve e com 8% das crianças que não tinham dermatite atópica.

Outro grande estudo que avaliou as evidências clínicas da marcha atópica foi um estudo observacional realizado na Alemanha que acompanhou 1.314 crianças do nascimento até os sete anos de idade. Seus resultados permitiram concluir que a dermatite atópica é uma condição comum na infância (21,5% das crianças até os dois anos de vida apresentaram dermatite atópica). A dermatite atópica nesse estudo levou a um risco de desenvolver asma/bronquite de 50% contra 12% em crianças que não apresentavam dermatite atópica.

Qual a causa da atopia e da marcha atópica?
A manifestação da atopia depende de fatores genéticos e ambientais. Tanto a dermatite atópica como as demais doenças atópicas são doenças geneticamente heterogêneas com diferentes graus de gravidade de manifestação clínica e são resultado de uma herança de múltiplos genes e de interações complexas entre esses genes e fatores ambientais.

Existe a possibilidade de se interromper a marcha atópica?
Se a atopia e a marcha atópica iniciam pela pele e pela dermatite atópica, é possível considerarmos que tratamentos que consigam barrar a dermatite atópica ou diminuir sua gravidade, diminuem também as outras manifestações de atopia, como a bronquite/asma e a rinite alérgica.

Atualmente, estudos utilizando hidratantes cutâneos tópicos de maneira preventiva desde as primeiras semanas de vida em crianças com risco de atopia (história familiar positiva para atopia) têm tentado avaliar esta questão. Nesses estudos, o uso diário e preventivo de hidratantes em crianças com risco para atopia foi iniciado após três semanas de vida e depois, mantido de maneira contínua. As crianças que utilizaram hidratantes preventivamente nesses estudos, reduziram pela metade o risco de dermatite atópica. Além disso, o uso de hidratantes não gerou qualquer efeito adverso, demonstrando-se uma prevenção segura para dermatite atópica.

Adicionalmente aos benefícios da prevenção da dermatite atópica com o uso de hidratantes, foi demonstrado que pacientes com dermatite atópica que utilizaram anti-inflamatórios tópicos (pomada de tacrolimus) em um tratamento por longo prazo apresentaram diminuição dos sintomas respiratórios da atopia.

Os autores advertem que mais estudos ainda são necessários para confirmar esses dados e mostrar a redução das demais manifestações de atopia nesses grupos, entretanto esses resultados são promissores e surgem numa época em que a incidência das doenças atópicas vem apresentando aumento nos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

 

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Referências:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5806141/

https://bit.ly/2Qchw4A

https://bit.ly/2YkWXaz

https://bit.ly/3j0eqNo

https://bit.ly/329sddY

https://bit.ly/2EemYS5

https://bit.ly/3gi82PX

https://bit.ly/2YjzsPg

 

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