Como o preconceito se manifesta no dia a dia

04 de agosto de 2020

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Durante esses tempos de pandemia, com o isolamento social e mudanças bruscas de rotina, manter a saúde mental está sendo um desafio para todos. Pois imagine que, para quem tem transtornos mentais, essas dificuldades os acompanham o tempo todo, em uma proporção muito maior de grau e de tempo.

Sofrendo com alterações emocionais e de comportamento que fogem ao seu controle, essas pessoas convivem, adicionalmente, com o estigma social. São tratadas como incapazes, preguiçosas e, muitas vezes, excluídas das oportunidades. Não é fácil admitir, mas poucos de nós estamos imunes a essa atitude. Por medo, por desconhecimento, por uma vontade de ajudar sem saber como, acabamos manifestando esse preconceito de várias formas que tornam a vida dessas pessoas ainda mais difícil. Veja como isso acontece:

Criamos rótulos
Adotamos ideias fixas sobre o que não conhecemos.

Tiramos conclusões precipitadas e estigmatizamos. Questionamos a capacidade de formar vínculos saudáveis, de tomar decisões para a própria vida, de trabalhar ou de assumir responsabilidades.

Negamos a doença.

Trazemos supostas soluções: “vai tomar um sol”, “vai fazer um exercício”, “vai meditar”. São coisas que ajudam? Claro. Mas não é tão simples. “Está aí uma ideia de que não há doença mental, de que a pessoa está só estressada. É a mesma coisa que você falar para alguém prestes a ter um infarto que, se ele não comer comida gordurosa, ele vai melhorar. Isso é obrigatório, mas não vai resolver. Ele vai precisar se tratar”, comparar Dr. Fiks.

Outro jeito de negar a doença

é atribuir um comportamento difícil ao caráter e não a um transtorno: “É chato”, “não aguenta o tranco”, “chora por tudo”, “muito cheio de mimimi’”. “Tem pessoas que são assim? É lógico. Mas outras vezes são patologias”, explica Dr. Fiks.

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Ou dar a entender que basta ter força de vontade.

“O familiar ou amigo diz ‘você tem que reagir’, ‘você só fica pensando coisa negativa’, ‘você não pode ser assim’, como se a dificuldade de fazer alguma coisa já não fosse parte do problema.”, diz a psiquiatra Dra. Maria Antônia Simões Rego.

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“Não se reprima!”

Dizemos à pessoa que tudo não passa de uma criatividade reprimida, que ela não precisa de tratamento, que o medicamento é uma camisa de força química. “Esse é um preconceito que vem da contracultura dos anos 1960, que começou com a maior das boas intenções, com uma ideia de liberdade, mas que acabou fazendo com que as pessoas chegassem atrasadas ao tratamento”, diz o psiquiatra Dr. José Paulo Fiks.

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Somos intolerantes

Não toleramos o diferente.
Não sabemos lidar com o comportamento
inesperado ou bizarro e somos tomados pelo sentimento de impotência. Não aceitamos
quem não tem a saúde mental “perfeita” e não damos espaço para as vulnerabilidades e peculiaridades humanas.

Partimos para o ataque.

Adotamos ideias fixas sobre o que não conhecemos. Tiramos conclusões precipitadas e estigmatizamos. Questionamos a capacidade de formar vínculos saudáveis, de tomar decisões para a própria vida, de trabalhar ou de assumir responsabilidades.

Silenciamos as emoções.

A pessoa se esconde ou finge estar sempre bem para ser aceita. “A pessoa não tem o direito de dizer que não está bem”, diz Dra. Alexandrina. Assim como não damos espaço para as emoções normais de qualquer ser humano. Quando alguém está irritado, dizemos “ih, já tomou seu remedinho hoje?”. Ou, para quem está em tratamento: “não tem que aumentar a dose, não?”. “Essas falas invalidam o que a pessoa está sentindo”, diz Dra. Maria Antônia.

Quando a pessoa em tratamento, a irritação pode sim ser um sinal de que é preciso fazer algum ajuste. Mas, mesmo se esse for o caso, a hora de falar é depois, como cuidado, não durante uma discussão.

Hostilizamos e excluímos

Reduzimos a pessoa ao seu transtorno mental e a afastamos, excluímos, oprimimos, discriminamos e reduzimos seu espectro de oportunidades sociais e profissionais.

Famílias se desmancham.

“Se é algo que se manifesta na infância, é comum o casal se separar e a mãe ficar com a criança. O pai não suporta conviver com o estigma e se afasta, se não recebe ajudar para ficar junto. Em casais, se é um dos dois que tem o transtorno, é comum o divórcio”, conta Dra. Alexandrina.

“Não tem perfil pra vaga.”

Em muitos ambientes profissionais, o transtorno mental ainda impede avanços de carreira ou mesmo oportunidades de emprego. “Quando o caso é mais extremo, pode ser que o transtorno passe desapercebido por muito tempo, mas, quando um comportamento fica mais evidente e acontece de perceberem, aí a pessoa perde totalmente a credibilidade”, conta Dra. Maria Antônia.

Fingimos que é igual.

Não nos organizamos, como sociedade, para incluir e aceitar o diferente enquanto pessoas igualmente úteis. “Tentar fazer de conta que as diferenças não existem também é preconceito”, diz a psiquiatra Dra. Giuliana Cividanes. “O fato de pessoas não serem iguais não significa que umas são inferiores às outras.” Assim, é preconceito quando não nos preparamos para aproveitar o melhor de cada um.

 

Apoio

Como todo preconceito, esse também é fruto da desinformação. E o melhor jeito de combater é trazer luz aos transtornos mentais. É informar. É perguntar e escutar, antes de reagir. Falar pode desfazer rótulos. Falar pode trazer um pedido de ajuda. Falar pode permitir o cuidado. Falar pode abrir espaço para a escuta e para a aceitação.

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