O preconceito na linha do tempo

06 de agosto de 2020

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Na cultura grega, a loucura era considerada um sinal de ligação direta entre os homens e os deuses. Os loucos eram
capazes de profetizar o futuro e conheciam todos os mistérios da vida. Eram especiais e
admirados.Até que Hipócrates, no século 4 a.C. propõe que os transtornos mentais seriam
relacionados ao mau funcionamento do organismo: a bílis é que causaria a mania ou a
melancolia.
idade média

Nessa época, a distinção entre o saudável e o patológico é dada pela
Igreja. A Bíblia contém

“O espírito do homem o sustenta
na doença; mas, o espírito deprimido, quem o levantará?”
Provérbios 18:14
“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.” Romanos 1:22
“Porque a ira destrói o louco; e o zelo mata o tolo.” Jó 5:2
“Os sábios herdarão honra, mas os loucos tomam sobre si vergonha.” Provérbios 3:35
“A mulher louca é alvoroçadora; é simples e nada sabe.” Provérbios 9:13

As pessoas com transtornos mentais eram exiladas, enviadas para outras cidades ou
para a morte certa.

O homem se torna o centro de tudo e desafia
as doutrinas religiosas. O racionalismo inaugurado por Descartes (1596-1650), com o seu
“penso, logo existo”, coloca o homem como ser racional em oposição ao doente mental,
irracional.
Os transtornos mentais passam a ser um problema da ciência e por ela incluídos e
explicados. As pessoas, porém, ainda eram apartadas do convívio social,

mas agora enviadas para os “hospitais gerais”, antigos
leprosários, para onde também iam todos os indesejados e que não seguissem as normas
da razão.

Fora da curva

– quando a exclusão ainda era a
regra, um livreiro chamado João Cidade (que posteriormente, canonizado, se tornou João
de Deus), na Portugal de 1500, tem um surto maníaco e é levado para o pátio de uma
igreja onde ficavam os chamados alienados. Um dia, depois de um sonho, ele pede para que
lhe tirem as correntes e passa a tratar dos doentes. Ele funda a ordem religiosa das
Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus,

É uma época de referências relevantes na literatura:


William Shakespeare
(1564-1616) escreve sobre três célebres “loucos”, que marcaram a
sua obra e o imaginário humano: Hamlet, um obsessivo que flerta com a ideia do
suicídio; Macbeth, que alucina tomado pela culpa; e Falstaff, o alcoólico intenso e
descontrolado.

Miguel de Cervantes, com seu Dom Quixote (1600),
propõe um brilhante diálogo entre a
razão e a loucura.

As pessoas com transtornos mentais eram exiladas, enviadas para outras cidades ou
para a morte certa.

A vida nos grandes centros urbanos empurra os transtornos mentais para a exclusão e para a rejeição, nos manicômios. Mas é também nos séculos 19 e 20 que a psiquiatria se desenvolve. Com Philippe Pinel (1745-1826), nascem os fundamentos do que viria a ser a psiquiatria: os chamados alienados seriam doentes com distúrbios no sistema nervoso.

É no século 20 que a psiquiatria se estabelece como especialidade médica, propondo tratamento e cura para os transtornos mentais. Os primeiros tratamentos com fármacos passam a ser usados nos anos 1930, evoluindo nos anos 1950 com os antipsicóticos e antidepressivos.

Nos anos 1960, a contracultura faz nascer a antipsiquiatria e a luta antimanicomial. Dois nomes foram importantes nesse momento: o médico italiano Franco Basaglia (1924-1980) e, no Brasil, a médica Nise da Silveira (1905-1999). Se, por um lado, esse movimento expôs os abusos dos manicômios e humanizou o tratamento, também fez alimentou a ideia de que o transtorno mental não deve ser tratado.

Assim, foi só nos anos 1990 que a especialidade se restabeleceu como capaz de tratar o sofrimento de quem tem transtornos mentais.

Seria a loucura um continente?

– No Brasil, Machado de Assis publica, em 1882, o conto O alienista. Nele, Simão Bacamarte, o alienista, fala de sua iniciativa: “Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Hoje, os estudos em neurociência ganham campo e aumentam o conhecimento sobre os transtornos mentais e seus tratamentos. As pessoas que têm transtornos mentais podem contar com uma diversidade de cuidados e participam do convívio social, enfrentando resquícios de estigmas e preconceitos que carregamos dessa longa história.

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