Vamos falar sobre suicídio?

21 de agosto de 2020

A importância de falar sobre suicídio com seriedade vem dos números alarmantes apresentados pela OMS: segundo pesquisas, o Brasil está em oitavo lugar dentre os países com maior número de suicídios. Assim, a campanha Falar pode mudar tudo traz reflexões acerca deste tema em um bate-papo muito interessante com o Dr. Neury J. Botega, que dá informações precisas sobre este assunto, que ainda é um tabu.

Vamos falar sobre suicídio?
“Pensar em morte e em suicídio fazem parte da condição humana”, diz o psiquiatra Dr. Neury J. Botega, professor titular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mas como saber quando e como um pensamento pode se tornar um plano e uma ação? É possível perceber e evitar? Confira alguns fatos sobre ideação suicida que reunimos com a ajuda do psiquiatra, um dos principais estudiosos sobre o assunto no país.

Pensar em suicídio é normal
A mortalidade é uma condição humana: sabemos que vamos morrer e não pensamos nisso o tempo todo, do contrário teríamos dificuldade em viver. Mas em algumas situações nós pensamos no suicídio. “Em um momento de desespero, posso pensar que o suicídio é a única saída. Ou, se uma pessoa conhecida se matou e eu fico sabendo, também posso pensar ‘como seria se eu também me matasse? Como eu me sentiria? Qual seria o impacto disso nas pessoas?’”, diz Dr. Neury.

Também é normal pensar em suicídio como algo distante, tecnicamente, lendo um livro ou assistindo a um filme. “Mas aquilo nem chega a me tocar.” O pensamento também pode vir rapidamente, invadindo a mente, e aquilo nos assusta – pode acontecer se você está em uma varanda muito alta e passa pela sua cabeça ‘e se eu me atirasse?’, mas você dá um passo para trás e se surpreende.

O problema é quando a pessoa não está bem
“Quando a pessoa não está bem, ela não está exatamente livre para decidir. Ela pode estar condicionada por uma depressão grave, ou pela embriaguez, pela raiva, pela desonra. Nesse caso, nós, como médicos, fazemos de tudo para que ela não se mate”, explica Dr. Neury.

O pensamento suicida nem sempre é claro
Imagine uma pessoa que sempre foi super cuidadosa no trânsito e que começa a pegar a estrada a 160 quilômetros por hora. Ou a pessoa que já está com o pulmão comprometido, sobreviveu a dois infartos mas segue fumando dois maços de cigarro por dia. “São comportamentos que facilitam para a morte fazer o trabalho dela. A pessoa não tem coragem de se matar, então ‘deixa na mão do destino’. É um comportamento autodestrutivo nem sempre consciente.”

Não, nem sempre tem um aviso
Há casos em que a pessoa se comporta com o que os especialistas chamam de “fuga para a saúde”. “A pessoa está mal, mas foge e adota um comportamento aparentemente muito saudável, destemido, alegre. Ou vai ao shopping e detona o cartão de crédito. É uma fuga para a saúde e para o prazer”, diz Dr. Neury. Quando essa pessoa se mata, as pessoas se chocam, porque podem ter estado em contato no dia anterior e tudo parecia bem. “Às vezes o suicídio vai sendo tecido artesanalmente no íntimo da alma e a pessoa não demonstra isso para nós.”

Há gradações, do pensamento ao plano
O modo como a pessoa se manifesta sobre o suicídio é o que dá as pistas para o profissional saber como agir para prevenir o ato. Mesmo pessoas que chegam ao consultório dizendo claramente que estão pensando em tirar suas vidas ainda podem ter tempo e oportunidade para trabalhar a questão e prevenir. “Eu pergunto se esse pensamento assusta, se há um esforço para afastar essa ideia e como a pessoa faz, se consegue. Já quando a pessoa mostra que a ideia de suicídio a tranquiliza, não dá mais medo, eu posso ter menos tempo para trabalhar o assunto com o paciente. Vou perguntar se a pessoa já tem um plano, se já escolheu o método, se já preparou tudo. A cada sim, minha atitude vai mudar”, explica Dr. Neury. Quando o risco é alto, os profissionais estão legalmente e eticamente autorizados a comunicar alguém próximo e criar uma rede de proteção.

É preciso sempre levar a sério

Sendo um pensamento normal ou um indício de risco real, é preciso sempre levar a ideação suicida a sério. “Ah, mas a pessoa fala isso só para chamar a atenção, quem quer se matar se mata, não fica ameaçando.” É, pode ser que tenha sim um componente de manipulação. Ainda assim é preciso levar a sério. “A pessoa que em uma briga de casal, por exemplo, ameaça se matar se a outra terminar o relacionamento, ela pode estar blefando, mas numa noite pode se embriagar e se matar”, alerta Dr. Neury.

Levar a sério não significa necessariamente levar a pessoa correndo para um hospital, mas dar o peso que o assunto merece. Pode ser falar sobre isso. Pode ser chamar para uma conversa séria, interessada em ajudar, sem julgar. Pode ser elaborar com a pessoa planos de emergência para quando o desespero estiver chegando. O importante é não banalizar o suicídio. “A banalização é uma negação poderosa. É preciso guardar sempre em um ponto na memória que aquela pessoa, quando está mal, chega a pensar em morte como uma solução e isso já é algo que merece atenção. É preciso estranhar e se interessar pelo que está levando ela a isso.”

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