Perguntas e respostas mais frequentes sobre enxaqueca

15 de fevereiro de 2016

A enxaqueca atinge cerca de 14% da população mundial. Só no Brasil, mais de 30 milhões de brasileiros sofrem dessa doença. Para que você saiba mais sobre o tema, conversamos com o Dr. Antônio Eduardo Damin, neurologista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Confira!

1. O que é enxaqueca?
A enxaqueca ou migrânea é uma doença neurológica, com base biológica multifatorial relacionada a fatores ambientais e genéticos, de diagnóstico clínico com predominância em pessoas jovens, principalmente mulheres, e que pode ser prevenida e tratada. É um dos mais de 200 tipos de dores de cabeça que existem. Ela se caracteriza por uma dor latejante geralmente unilateral (em um dos lados da cabeça), de intensidade média a forte, piora com atividade física rotineira (como subir escadas) e que dura de quatro a 72 horas. Provocada por um distúrbio neurovascular, é uma dor incapacitante que obrigada, muitas vezes, o paciente a recolher-se em um ambiente escuro em virtude dos sintomas associados a ela, como hipersensibilidade à luz e ruídos, náusea e vômito.

2. Quais são suas causas?
As causas exatas da enxaqueca são desconhecidas, embora se saiba que há alterações em sistemas relacionados com a propagação dos impulsos de dor no cérebro e que há influência genética. Ela começa quando o cérebro, que é mais sensível nos enxaquecosos, reage a algum gatilho frequentemente externo (como estresse, certos alimentos e bebidas alcóolicas), enviando impulsos para os vasos sanguíneos causando sua dilatação (expansão) e a libertação de substâncias inflamatórias (como as prostaglandinas) que causam a dor e o sofrimento. A frequência de crises é variável entre os pacientes.

3. Quais são os sintomas associados à dor?
Os sintomas mais comuns são náuseas, vômitos, fotofobia (intolerância à luz) ou fonofobia (intolerância ao som), bocejos, irritabilidade, tontura, fadiga, mudanças de apetite, problemas de concentração e sensibilidade à movimentos do corpo.

4. O que fazer durante a crise?
Os pacientes com crises frequentes de enxaqueca devem sempre ter seus medicamentos à mão. Após a dor de cabeça iniciar é comum ocorrer um processo de sensibilização central, que mantém a cefaleia e a torna mais resistente aos analgésicos, diminuindo sua eficácia. Isso significa que quanto mais tempo o paciente esperar para tratar a crise, mais resistente a dor será à medicação. Além disso, é importante que o medicamento tenha sido prescrito por um médico. Assim, o indivíduo evita a automedicação e o abuso de analgésicos, que podem não ser a substância correta para tratar a enxaqueca ou usar doses insuficientes para aliviar a dor e até mesmo contribuírem para torná-la crônica.

5. Como prever que a crise está por vir?
Quando o paciente apresenta sintomas visuais, sensitivos ou até mesmo alteração na fala antes da dor, ele tem a chamada migrânea com aura (as auras visuais são as mais frequentes). Essas sensações podem durar entre poucos minutos até uma hora, seguidos da dor de cabeça típica da enxaqueca. Entre os sinais mais comuns de enxaqueca com aura estão: pontos brilhantes ou manchas escuras em forma de mosaico na visão e dormências ou formigamentos pelo corpo.

6. O que desencadeia a enxaqueca?
Os gatilhos da crise são diferentes em cada pessoa, bem como os fatores que ajudam a amenizar os sintomas. Por isso, o que melhora a fase aguda para um indivíduo pode não ajudar para todos, cabendo a cada um prestar atenção em seus próprios agentes desencadeantes e o que pode ser feito para evitar ou amenizar a dor quando ela vier. A elaboração pelo paciente do diário de cefaleia pode contribuir para se detectar quais são os seus próprios fatores desencadeantes.

7. Quais são os fatores desencadeantes mais comuns?
O estresse é um dos fatores desencadeantes mais comuns da enxaqueca. Situações, como enfrentar congestionamento no trânsito, alto nível de pressão no trabalho, excesso de expediente e discussões familiares contribuem para isso. Jejum prolongado, uso de bebida alcoólica (principalmente o vinho tinto) e consumo excessivo de café também disparam a crise. Outros fatores desencadeantes comuns são o chocolate, os refrigerantes à base de cola (quando em excesso), o chá preto, exposição a alta luminosidade, alterações de sono, entre outros.

8. Por que as mulheres têm mais enxaqueca do que os homens?
Há várias teorias para explicar o motivo das mulheres terem mais enxaqueca do que os homens, mas a principal é a flutuação dos níveis de estrógeno ao longo do ciclo menstrual. Isto pode explicar também o fato da mulher ter piora da dor no período menstrual. Algumas outras teorias afirmam que elas possam ser mais sensíveis aos fatores desencadeantes da enxaqueca do que os homens, como o uso de álcool.

9. O que leva a migrânea ainda ser uma patologia subdiagnosticada?
No Brasil, estima-se que apenas 56% dos pacientes procurem atendimento médico. Na grande maioria dos casos, as pessoas utilizam analgésicos por conta própria por acreditarem que a enxaqueca não é uma doença. Dessa forma, muitos pacientes acabam por abusar de medicações não indicadas para as crises de enxaqueca e podem sofrer com efeitos colaterais e outras consequências negativas relacionadas a certos medicamentos. Além disso, alguns pacientes podem necessitar de tratamento preventivo para diminuir a frequência de suas crises, orientação que deve ser dada pelo médico.

10. Mesmo com tratamento, as crises afastam as pessoas de suas tarefas diárias durante as crises de enxaqueca? Por quê?
A dor nas crises é de intensidade moderada a grave e, com isso, podem incapacitar ou diminuir a função dos pacientes para realizar as atividades do cotidiano em casa, no trabalho, nos estudos ou no lazer. Quando elas não são devidamente tratadas, esta incapacidade parcial ou total pode permanecer e afetar o dia a dia do paciente gerando sofrimento e perda de produtividade. Além disso, elas são associadas aos outros sintomas limitantes como náuseas, vômitos, fotofobia (intolerância à luz) ou fonofobia (intolerância ao som), que podem forçar o paciente a ficar quieto dentro de um quarto escuro durante o período em que elas durarem.

11. Como é feito o tratamento atual da enxaqueca?
O tratamento da enxaqueca não é tão simples e envolve também mudanças de comportamento e hábitos. É indispensável que o paciente entenda por que a dor existe no seu organismo. Ela é um sinal de alerta do sistema de defesa com a função específica de readquirir o equilíbrio interno do organismo. Ou seja, a dor é um sintoma e reflexo de uma doença. A terapêutica medicamentosa envolve duas modalidades, uma para a fase aguda e outra para a prevenção e, em alguns casos, ambas são associadas. Na primeira, são utilizadas medicações para interromper a forte dor. Essas medicações podem ser não específicas para a enxaqueca, como os anti-inflamatórios não hormonais e as específicas, como os ergotamínicos e triptanas. Na etapa preventiva, são utilizados medicamentos de uso contínuo, mesmo fora da ocorrência das dores nas crises agudas, com o intuito de diminuir a frequência e intensidades das mesmas. Entre eles estão desde alguns tipos de anti-hipertensivos, até alguns antidepressivos e medicamentos antiepiléticos/neuromoduladores, como o topiramato, entre outros. Deve-se ressaltar que apenas o médico especialista pode avaliar qual a medicação indicada para cada tipo de paciente e quando ele deve fazer apenas tratamento das crises agudas ou necessita associar um tratamento preventivo.

12. Por que, mesmo depois de tomar o medicamento e a dor mais aguda ter melhorado, o paciente fica ainda com uma sensação dolorosa na cabeça? O que é isso? Existe algo que alivie essa sensação?
Além da dor aguda típica, durante as crises de enxaqueca, o paciente apresenta vários sintomas associados, como náuseas, vômitos, intolerância à luz e ao barulho. Após melhorar da crise de dor aguda mais intensa, é muito comum os pacientes permanecerem com uma sensação de incômodo na cabeça, que pode piorar ao tocar nela com as mãos ou objetos como pentes, ao balança-la ou até mesmo com algum tipo de atividade física.

13. Como explicar a recorrência da dor dentro das 24 horas após o uso do medicamento?
A recorrência da dor ocorre por vários motivos, mas um dos principais é que o processo biológico que desencadeia e gera as crises de enxaqueca, ocasionando alterações no cérebro e vasos cerebrais, pode persistir mesmo com a utilização de medicamentos indicados para as crises de enxaqueca. Assim, após acabar o tempo de ação do medicamento a dor pode voltar.

14. Existe alguma forma de reduzir ou eliminar a recorrência das crises?
A recorrência da dor na enxaqueca, ou seja, sua volta após seu alívio inicial, ocorre normalmente dentro de 24 horas após o uso de medicamentos para o tratamento agudo e é relativamente comum. Na enxaqueca há vários processos biológicos que estão alterados. Assim, ao se utilizar uma medicação que possua duas substâncias com mecanismos de ações complementares que visam reverter estas alterações, pode-se obter um maior alívio e uma menor recorrência da dor ao se comparar ao tratamento com as substâncias isoladas.

15. Quais os motivos que levam o paciente a não aderir ao tratamento?
Um dos principais motivos é a utilização de um plano de tratamento complicado. Uma das formas de facilita-lo é utilizar o menor número possível de comprimidos.

16. É possível evitar a enxaqueca causada pela menstruação?
Como a menstruação é uma oscilação hormonal cíclica, nem sempre conseguimos impedir o surgimento da enxaqueca menstrual, mas algumas medidas podem amenizá-la, como procura de fatores de piora da dor ou até mesmo uso de certos medicamentos indicados pelo médico especialista.

17. Em que consiste o tratamento não medicamentoso?
Existem algumas medidas não medicamentosas (ou seja, sem necessidade de utilização de medicamentos) que podem ter bons resultados no tratamento da enxaqueca. A principal é identificar e evitar os fatores desencadeantes da enxaqueca. Exercício físico também pode ajudar, quando bem indicado pelo médico. Qualquer desvio comportamental (excessos alimentares ou de trabalho, sedentarismo) e do equilíbrio do organismo é ruim para a enxaqueca e deve ser corrigido. Os lados psíquico/emocional também não pode ser desprezado. Apesar de ser importante, o tratamento não medicamentoso, em geral, é um coadjuvante do tratamento medicamentoso, já que pela intensidade das dores na enxaqueca, o uso de medicamentos quase sempre está indicado.

18. O excesso de analgésicos pode provocar dor de cabeça?
O uso desmedido de analgésicos sem suporte médico apropriado pode causar uma forma de dor de cabeça chamada de cefaleia por abuso de medicação, que pode ser diária ou quase diária e levar a mais incapacidade para o paciente e perda da qualidade de vida. O tratamento da enxaqueca deve ser feito através de consultas periódicas com um neurologista.

19. Problemas na visão e sinusite causam enxaqueca?
A enxaqueca é apenas um dos tipos de dor de cabeça. Alguns problemas na visão e a sinusite podem causar dores de cabeça que, em geral, possuem sintomas diferentes da enxaqueca. Apesar disso, pacientes que têm enxaqueca também podem ter estas doenças e, por isso, a procura de orientação médica é sempre importante para se fazer o diagnóstico e tratamento adequados. Vale lembrar que algumas crises de enxaqueca podem ser acompanhadas de manifestações visuais, as chamadas auras visuais, como pontos enegrecidos, bolas coloridas, manchas, linhas brilhantes e perdas visuais, que são temporárias.

20. Enxaqueca é causada por problemas no fígado e estômago?
Como a maioria das pessoas tem náusea e vômitos nas crises, é comum a associação entre a enxaqueca e preocupações referentes a problemas de estômago e fígado. Porém, esses incômodos ocorrem como parte do próprio processo químico da dor, que faz com que o estômago se dilate e fique paralisado, causando sensação de indigestão e enjoo. Mesmo o fato de certos alimentos desencadearem episódios de enxaqueca em algumas pessoas, não tem a ver com a digestão e sim com a ação de certas substâncias derivadas dos alimentos (como tiramina e nitritos) que agem diretamente no cérebro, desencadeando as crises de enxaqueca.

21. Há alimentos que ajudam a melhorar a enxaqueca?
Muito se fala em dietas que ajudam a melhorar a enxaqueca, mas, elas não têm fundamento científico. O magnésio (encontrado em alimentos verdes frescos e frutos do mar) e um aminoácido chamado triptofano (presente em verduras frescas e no feijão) até podem ajudar, mas, nas quantidades presentes na comida, têm importância limitada. Quando as dores são desencadeadas por certos alimentos, evitá-los ajuda a diminuir as crises.

22. Dormir muito ajuda a melhorar?
Em muitas pessoas, a privação de sono desencadeia dores de cabeça. Mas dormir mais do que se está acostumado também é um gatilho para as crises. Um caso relativamente comum é a chamada “enxaqueca de fim de semana”, na qual o paciente só sente dores no sábado e no domingo, quase sempre porque dorme muito mais tempo do que o habitual. O segredo, portanto, é ter um ritmo de sono regular.

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